O Barroco vigorou no Ocidente do século XVI ao XVIII, em reação ao espírito renascentista.
A palavra barroco é de origem portuguesa. Após servir para designar uma pérola de forma irregular, foi aplicada à arte do século XVII ou, mais exatamente, à arte produzida no Ocidente entre a última década do século XVI e a primeira metade do século XVIII. O barroco foi uma reação contra o espírito renascentista, impregnado de clareza e ordem, e ocorreu logo após o aparecimento do maneirismo, que de certo modo o anuncia. Levado a suas últimas e mais exuberantes conseqüências, toma o nome de rococó, estilo contra o qual reagiria, em fins do século XVIII, o neoclassicismo. Revisão e aceitação do estilo. Até quase o final do século XIX, o barroco foi visto como estilo decadente, espúrio ou bastardo, encarado com evidente má vontade por historiadores e críticos de arte. As tentativas de compreensão do barroco só adquiriram relevo a partir da década de 1880. Em 1887, Cornelius Gurlitt publicou o estudo Geschichte des Barockstils in Italien (História do estilo barroco na Itália), seguido de outros sobre a Alemanha e a França. De 1888 é a monumental monografia de Carl Justi sobre Velázquez. Heinrich Wölfflin, no mesmo ano, publicou Renaissance und Barock, livro que deu início à verdadeira revisão do barroco, levantando o que seriam as categorias formais fundamentais do estilo: a abundância de elementos pictóricos, a profundidade, as formas abertas, a unidade e a claridade relativa dos temas. A despeito desses avanços conceituais quanto ao valor do estilo, só após a consagração do impressionismo, no alvorecer da arte moderna, o barroco começou a ser amplamente aceito. Segundo as interpretações desde então correntes, o barroco não aspira a uma persistência tranqüila, conclusa em si mesma, mas a um perpétuo vir-a-ser, para dar ênfase à idéia de movimento. No desejo de destacar as energias em sua máxima tensão, criam-se conflitos de força que geram contradições, como a que se torna evidente entre a sensualidade das formas e um claro substrato de aspirações místicas. Revisto e revalorizado o estilo, pode-se falar hoje não apenas de artes plásticas barrocas, mas também de um barroco literário e musical, de uma cultura, de um pensar ou modo de ser barroco e, até mesmo, de uma civilização barroca. Formação histórica. Com as transformações sucessivas desencadeadas pelo humanismo, o Renascimento e a Reforma, o poder da igreja e o do estado viram-se enfraquecidos. A Igreja Católica, para reconquistar seu prestígio, organizou a Contra-Reforma, aplicada em grande parte pelos jesuítas, cuja atuação foi básica na gênese do movimento barroco. Sob esse prisma, o barroco constituiria a expressão de uma cultura católica, com seus valores particulares, suas contradições e sua veemência geral, expressão essa que se mostrou bem óbvia nas novas terras reveladas à Europa pela aventura marítima dos portugueses e espanhóis. Mas óbvia é também a inferência de que o barroco corresponde à era dos absolutismos, religioso e secular. Nos Países Baixos e na Inglaterra, a vitória sobre a Espanha abriu imensas perspectivas econômicas e culturais. Na França, o rei Sol, Luís XIV, ocupou o centro de um sistema em torno do qual gravitavam do mais nobre ao mais modesto cidadão. Sob o fascínio de sua corte, a ostentação tornou-se regra geral, transformando-se a Europa inteira num esplendoroso teatro onde cada um queria desempenhar o melhor papel. A época do barroco, por outro lado, foi de violentos contrastes: o racionalismo progrediu, representado por sábios como Descartes e Newton, e o Iluminismo lançou as bases de um mundo novo mediante sua materialização mais típica, a Encyclopédie, preparadora da revolução francesa de 1789.
Barroco Literatura. Na arte literária, o barroco caracterizou-se pelo emprego de hipérboles, antíteses, anacolutos e outras figuras de linguagem que exprimem exuberância ornamental e, sobretudo, tensão e conflito. O século XVII foi sua moldura histórica. Apesar de ser considerado o signo por excelência da alma espanhola, o barroco ocorreu por toda a Europa e a América Latina. Na Itália, Tasso é o grande poeta barroco, com sua epopéia cristã Gerusalemme liberata (1575; Jerusalém libertada) sempre posta em relevo pela extraordinária musicalidade dos versos. Duradoura foi a influência do marinismo, corrente preciosa e afetada que surgiu na esteira da obra de Giambattista Marino, afirmando-se pela capacidade de parafrasear temas eróticos e imitar estilos do passado. Duas são as vertentes do barroco literário espanhol: o culteranismo e o conceptismo. Antagônicas quanto à estratégia literária, uma visando ao enobrecimento da forma, outra ao refinamento intelectual, as duas vertentes estilísticas são a cara e a coroa de uma mesma moeda. Apenas o culteranismo marcou mais a poesia, enquanto o conceptismo se evidencia sobretudo na prosa barroca. Em relação às práticas renascentistas, constituíam duas categorias artísticas novas. O maior expoente da poesia barroca espanhola é Luis de Góngora, cujo virtuosismo decorreu da determinação de fugir à dicção vulgar e nunca usar em seus versos os lugares- comuns. Essa é a razão pela qual alusión y elusión são as duas principais características de seu fazer poético, que por essa via chegou ao hermetismo. O elenco de imagens gongorinas, centrado na criação incessante de metáforas insólitas, conferiu ao autor, em seu tempo, a aura da obscuridade, mas aproximou-o da poesia moderna, que encontrou en Góngora a fonte de uma criação partida simultaneamente da inteligência e dos sentidos. O culteranismo encarnado por Góngora teve seu pólo oposto nas teorias de Baltasar Gracián, que em Agudeza y arte de ingenio (1642), estabeleceu a plataforma estética do conceptismo. Outro grande representante do conceptismo, que propunha a concisão e a sobriedade contra os exageros verbais do culteranismo, foi Francisco de Quevedo, cuja obra imensa é uma das culminâncias do barroco. Entre os extremos representados por Góngora e Quevedo situam-se os outros três grandes nomes do barroco espanhol: Lope de Vega, que optou por temas populares e tornou-se um dos mais prolíficos dramaturgos da história; Tirso de Molina, que criou um tipo, Don Juan, constantemente retomado pela tradição literária; e Pedro Calderón de la Barca, que em sua cosmovisão -- La vida es sueño -- antecipou a nostalgia romântica. Algo do espírito de Calderón pode ser encontrado no maior dramaturgo do teatro jesuítico na Alemanha, Jacob Bidermann. À mesma época pertencem Andreas Gryphius, autor de uma lírica sombria que o tornou o maior poeta do barroco protestante alemão, e Angelus Silesius, que ocupa idêntica posição dentro da tradição católica. A mais notável obra em prosa do barroco alemão é o Abenteuerlicher Simplicius Simplicissimus (1669; O aventureiro Simplício Simplicíssimo), que traça um quadro dos costumes durante a guerra dos trinta anos e foi o protótipo do romance de formação (Bildungsroman) ao narrar a trajetória da evolução individual de um homem. A um público de elite dirigiu-se Anton Ulrich von Braunschweig, com histórias heróico-galantes em que descrevia a vida dinástica. A irradiação cultural espanhola é um dos vários fatores apontados para o aparecimento do barroco na Inglaterra, onde o período se caracteriza, na esfera literária, pela atuação de Marlowe, cujo barroquismo é documentado pela tragédia Doctor Faustus e peças como Edward II; Milton, já apontado como o mais polifônico dos poetas barrocos; e John Donne, a figura central do grupo dos poetas metafísicos, em cuja linguagem há vestígios de gongorismo. Na França, o barroco transparece no teatro de Molière, cuja temática foi a crítica do sistema medieval remodelado sob o absolutismo. É em uma das obras tardias de Francisco Rodrigues Lobo, A corte na aldeia (1619), que se pode localizar as origens do barroco literário em Portugal. Importância análoga, como fonte, tem Francisco Manuel de Melo, que mesclou sua linguagem a vozes arcaicas e popularizantes, denunciando as vilanias sociais da época no Escritório do avarento, sua autobiografia picaresca. No entanto, a maior figura do barroco em língua portuguesa é o padre Antônio Vieira, que pertence tanto à literatura lusa quanto à brasileira. Depois dos Sermões de Vieira, o grande testemunho do barroco português é a Arte de furtar, de autor anônimo, que é também um depoimento completo sobre a realidade social do tempo de D. João IV. No plano histórico, o Brasil, como toda a América Latina, é uma criação da mentalidade barroca. O significado social do barroco é porém muito maior no Brasil do que seus frutos literários. Com dimensão artística, excluída a obra de Vieira, há somente a poesia de Gregório de Matos, que se reveste de alto sentido de crítica aos vícios, torpezas e violências da sociedade colonial. Esse culterano era, paradoxalmente, um temperamento plebeu. Daí a virulência descarnada de sua sátira. Mas os requintes verbais não lhe sufocam a emoção, tocada às vezes de vontade de pureza. O barroquismo foi a herança mais permanente que o barroco legou à sensibilidade literária brasileira. Muitas das grandes obras surgidas no Brasil, sobretudo durante o romantismo, trazem sua farfalhante marca.
Arte barroca no Brasil
É principalmente a Portugal que se liga o barroco brasileiro, seja ele o do norte, seja o de Minas Gerais. Este último apresenta afinidades notáveis com a arte de Braga e do Porto. De início transplantado, o barroco mineiro acabou por se impor à metrópole, com soluções próprias mesmo no que toca aos elementos estruturais. Coroamento do estilo luso-brasileiro, o barroco não poderia ser visto no Brasil como arte bastarda ou espúria, muito menos decadente, pois é ela nossa verdadeira raiz nacional. Nunca tivemos arte clássica no sentido renascentista; daí a prevalência do barroco, cujos resíduos transparecem até na arquitetura moderna e outras manifestações criadoras. Quando os jesuítas chegaram ao Brasil, reduzia-se este a vastos campos de catequese e vagas capitanias hereditárias, razão por que não se pode aplicar o epíteto de contra- reformista à arte religiosa brasileira. Os jesuítas, no Brasil, não viviam em mosteiros como na Idade Média européia: faltava-lhes a atmosfera de recolhimento e sossego peculiar aos claustros. Devido à imposição do meio físico e social, à ambiência tropical e ao objetivo da Companhia de Jesus, que era a doutrina e a catequese, o programa e o partido, na arquitetura, foram nitidamente orientados. As igrejas eram amplas (verdadeiras salas de prédica, igrejas-salão), com locais para trabalho (aulas e oficinas) e residência. A arquitetura dos mosteiros e conventos, por sua vez, era despojada e austera. Os dois focos principais do barroco litorâneo são o que se liga ao ciclo da cana-de-açúcar no Nordeste (Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia) e o que inclui Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo. O barroco litorâneo do Nordeste reflete uma sensibilidade mais próxima à da aristocracia rural, uma certa exuberância e pomposidade. São as igrejas, comentadas por Gilberto Freire e Luís Saia; são as varandas, para uso dos escravos; e os retratos nas casas grandes e santas casas, praticamente inexistentes em Minas Gerais, onde o barroco era mais ligado a uma ideologia burguesa. Ouro Preto, em função da atividade mineratória, transformou-se no primeiro centro urbano do Brasil. No Brasil, como em quase toda a América Latina, importavam-se de início da Europa a pedra de lioz e outros materiais como a cal-de-pedra, com instruções de uso. Vinham artesãos, monges beneditinos, franciscanos e carmelitas, que foram na verdade os primeiros artistas a trabalharem no Brasil. Mais tarde, quando a evolução da sociedade e sua estratificação em classes passou a exigir retratos, os primeiros exemplares foram feitos em Portugal. Entretanto, seria Minas Gerais o berço da mais forte e mais bela expressão de uma arte barroca genuinamente brasileira. Um mais alto poder aquisitivo -- proporcionado pelo ouro, cuja exploração acabaria por destruir a rigidez social, colocando juntos, na mesma atividade mineratória, senhores e escravos -- e uma aguda sensibilidade artística foram os principais fatores que animaram a produção de arte em Minas Gerais, propiciando o aparecimento de figuras exponenciais como o Aleijadinho, Manuel da Costa Ataíde, Bernardo Pires, João Batista Figueiredo, o guarda-mor José Soares de Araújo e tantos outros.
sábado, 1 de dezembro de 2007
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Um comentário:
Olá, acredito no empenho em realizar este trabalho de forma diferente, no entanto pediria que houvesse mais texto próprio do grupo, síntese. É mais válido para a aprendizagem!
bjs,
profe Emília
Postar um comentário